Introdução (ou algo que o valha)

Já vou logo avisando.
Não atualizo esse blog com a frequência que vocês merecem, mas quando resolvo escrever uma postagem eu pesquiso o tema com uma dedicação canina e redijo o texto com carinho maternal. Quanto a isso, dizem por aí que só existem 3 certezas na vida: A Morte, o Imposto de Renda e as informações encontradas neste blog (essa última certeza é fruto de um dos meus delírios de grandeza, hehehe).
Espero que encontrem a informação que procuram, que tirem as dúvidas, e que algum dia eu ganhe sozinho na mega sena.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Fisioterapia em pacientes renais crônicos

Atendendo a pedidos fiz uma pesquisa sobre como a fisioterapia pode ajudar pacientes com doença renal crônica. Para minha surpresa descobri que mesmo em centros especializados ações de fisioterapia nesta população ainda não são rotina, apesar dos benefícios para a saúde geral dos pacientes renais crônicos.

INTRODUÇÃO
A Doença Renal Crônica (DRC) é definida com a perda lenta, progressiva e irreversível da função renal. Devido a falência dos mecanismos excretores renais, o organismo não consegue mais eliminar substâncias tóxicas do sangue tais como a creatinina e a uréia, entre outras. O acúmulo destas substâncias afeta quase todos os sistemas do corpo, trazendo consigo co-morbidades significativas tais como neuropatia periférica, rigidez articular, dor, perda de massa muscular e astenia, entre outras. Tais co-morbidades podem se manifestar como dificuldade na deambulação, déficit de equilíbrio, dor e rigidez articular, comprometendo assim a independência nas atividades de vida diária.
Colocando as coisas deste jeito, fica claro que devido ao impacto sobre a qualidade de vida esta é uma condição que requer cuidados de fisioterapia e terapia ocupacional. De fato, alguns estudos demonstraram que um programa de treinamento físico pode ser aplicado de forma segura nesta população, sendo inclusive capaz de modificar a morbidade e a sobrevida dos pacientes urêmicos crônicos, trazendo-lhes benefícios metabólicos, fisiológicos e psicológicos.
Referências
Exercício físico em pacientes dialisados (Clique Aqui)
INTERVENÇÕES DE FISIOTERAPIA.
De acordo com os trabalhos citados acima, exercícios terapêuticos podem ser desenvolvidos mesmo durante o procedimento de hemodiálise. O procedimento de diálise por si só é bastante custoso ao paciente, exigindo que permaneça horas sentado e não raro causando-lhes mal-estar. Tudo isso contribuindo para a perda progressiva do condicionamento físico.
Estudos apontam que programas de treinamento de exercícios físicos têm modificado a morbidade e sobrevida dos pacientes urêmicos crônicos, trazendo-lhes benefícios metabólicos, fisiológicos e psicológicos. Sabe-se hoje que exercícios realizados durante a hemodiálise, quando devidamente orientados, são indicados e seguros a esses pacientes, apesar de ainda não terem se tornado rotina nos centros de diálise
Dois trabalhos brasileiros recentes investigaram os efeitos de um programa de exercícios em pacientes renais crônicos, com resultados bastante promissores. Segue abaixo o resumo do resumo e o link para quem quiser acessar os artigos.
Efeito do Treinamento Muscular Periférico na Capacidade Funcional e Qualidade de Vida nos Pacientes em Hemodiálise (Clique Aqui)
Este trabalho foi publicado em 2009 no Jornal Brasileiro de Nefrologia e investigou os efeitos de sessões de fisioterapia regulares de cerca de 30 minutos de duração ao longo de 5 meses em 7 pacientes durante o procedimento de hemodiálise. Ao final do período, todos os pacientes tiveram aumento na força muscular e em alguns domínios do Questionário SF-36 (embora não tenham alcançado significância estística). Não houve diferença significativa no teste de caminhada de 6 minutos, porém foi relatada melhora nos sintomas secundários, como a dor em membros inferiores, câimbras, fadiga, e diminuição na medicação para essas consequências.
Repercussão de um protocolo fisioterapêutico intradialítico na funcionalidade pulmonar, força de preensão manual e qualidade de vida de pacientes renais crônicos. (Clique Aqui)
Este trabalho foi publicado em 2010, também no Jornal Brasileiro de Nefrologia. Foram pesquisados os efeitos de três sessões semanais de exercícios de aproximadamente 25 minutos de duração durante 2 meses. Os exercícios eram realizados durante o procedimento de hemodiálise.
Embora as variáveis pesquisadas não tenham exibido diferenças significativas, assim como no trabalho acima, vários pacientes relataram melhora álgica em MMII, diminuição de incidência de cãibras, maior disposição e menor cansaço para realizar atividades de vida diárias.

Mas nem tudo são flores
Sugiro aqueles que pretendem desenvolver atividades físicas com pacientes renais crônicos, que conversem com o nefrologista responsável, pois uma complicação possível dos exercícios físicos em pacientes renais crônicos é a rabdomiolise.
A rabdomiólise é uma síndrome caracterizada por necrose muscular com libertação de constituintes celulares para a circulação sanguínea, induzida por exercícios físicos intensos ou desenvolvidos em condições adversas (como exercícios de instrução militar, por exemplo).
A lesão da membrana das células musculares resulta na liberação de mioglobina, hemoglobina, precursores das purinas, creatinina, potássio, ácido úrico, cálcio, fosfato e creatinoquinase, as quais podem ser danosas a uma pessoa cujos rins não estejam plenamente funcionais.
Referência:

Insuficiência renal e rabdomiólise induzidas por exercício físico (Clique Aqui)

Referências Gerais
The effects of exercise training on muscle atrophy in haemodialysis patients. (Clique Aqui)
Exercícios Físicos Durante a Hemodiálise: Uma Revisão Sistemática. (Clique Aqui)
Physical functioning and health-related quality-of-life changes with exercise training in hemodialysis patients. (Clique Aqui - somente abstract)
Exercise training during hemodialysis improves dialysis efficacy and physical performance (Clique Aqui)

é isso aí pessoal, e
spero que seja útil

domingo, 11 de setembro de 2011

Andador de Bebês, além de atrasar o desenvolvimento motor podem ser um risco para crianças

Eu acho que todo mundo conhece, ou até mesmo usou um andador infantil quando era criança. Estes andadores são muito populares aqui no Brasil, sendo que muitos pais adquirem este equipamento acreditando que ele oferece segurança e ajuda a criança a andar mais rápido. . . . Pois é galera, este é um belo exemplo de como as aparências enganam . . .

Logo de cara preciso avisar que não sou vendedor de brinquedos infantis, não faço consultas e nem avalio atraso motor pela internet. Esta é uma postagem direcionada a estudantes de fisioterapia e profissionais da saúde.

Como andadores infantis podem ser perigosos?
Os andadores são projetados para oferecer mobilidade as crianças, e é justamente nesta mobilidade que mora o perigo. Um andador pode alcançar a velocidade de 1m/s (Lang-Runtz, 1983). dependendo da distância, esta velocidade é mais do que o suficiente para dificultar que um adulto a impeça de se aproximar demais de um degrau ou escada. Além disso, o fato dos andadores de bebê permitirem que as crianças fiquem “de pé”, aumenta o seu alcance o que lhes permite tocar objetos perigosos e puxar fios elétricos.
As lesões que podem ocorrer a partir do uso de andadores incluem ferimentos na cabeça e trauma no abdome ou membros devido as quedas. Lesões por impacto resultantes de crianças que puxam sobre si mesmas objetos pesados tais como ferros de passar, aparelhos de DVD, televisores e outros itens domésticos. O alcance pode também gerar um maior risco de asfixia devido à ingestão de pequenos objetos deixados sobre mesas de centro e demais mobiliários baixos.
VOCÊ SABIA?
A queda de escada com andadores infantis costumava ser a principal causa de lesões graves na cabeça de crianças menores de 2 anos no Canadá. Isso até o governo canadense banir este produto do país. Isso mesmo! Desde abril de 2004 é proibido importar, anunciar e vender andadores infantis no país.

De que forma os andadores atrapalham o desenvolvimento motor?
Bebês são curiosos por natureza e esta curiosidade é o que os motiva a se movimentar e explorar o ambiente ao redor. Ao longo do primeiro ano de vida este espírito explorador estimula o bebê a alcançar alguns dos principais marcos do desenvolvimento motor normal como se arrastar, rolar, engatinhar e finalmente andar. Como citado em uma postagem anterior, estas aquisições não se resumem apenas a postura. Ao engatinhar a criança desenvolve força nos abdominais e aprende a coordenar e transferir o peso corporal entre os membros de modo a conseguir se locomover. Ao sentar sem apoio, manipulando um brinquedo, desenvolve o equilíbrio de tronco e aperfeiçoa a bimanualidade. Existem alguns estudos que comprovam que crianças que utilizam demais o andador podem apresentar atraso no desenvolvimento motor. Embora eu não tenha encontrado nenhum modelo que explique a razão do atraso, um pequeno exercício de observação do movimento no andador pode explicar a razão deste atraso.
Vamos começar de baixo pra cima: Caso a criança seja pequena para o tamanho do andador, ela inevitavelmente irá se locomover utilizando a ponta dos pés, empurrando o chão para trás sem descarregar o peso sobre os MMII e sem experimentar o padrão de contração muscular de movimentos coordenados de joelho, tornozelo e quadril. Mesmo se o tamanho da criança for adequado, ainda assim ela vai andar com os joelhos dobrados, mais uma vez sem experimentar o padrão esperado de marcha para a idade.
A cadeirinha na qual a criança fica sentada no andador oferece estabilidade demais. Assim a criança não precisa se incomodar em manter o equilíbrio ao manusear um objeto ou se deslocar com o andador. Além disso, enquanto ela está no andador, ela não está exercitando o rolar, o engatinhar e nem estará tentando dar os primeiros passos por conta própria.
Felizmente este atraso motor não é preocupante. As crianças superam isso facilmente sem maiores problemas. Porém o grande problema é quando pais de crianças com disfunção neuromotora (mielomeningocele ou encefalopatia crônica, por exemplo) decidem usar o andador para “ajudar” com a fisioterapia de seus filhos e filhas. Neste caso teremos problemas de verdade, com a criança experimentando dois padrões de movimento completamente diferentes: De um lado o/a fisioterapeuta tentando ensinar um padrão funcional de marcha enquanto do outro lado o andador reforçando um padrão inadequado, sendo que a luta fica ainda mais injusta se contabilizarmos as horas em que a criança permanece em fisioterapia e as horas que ela passa com o andador em casa.
E agora, o que fazer?
Bem galera, como pai sei muito bem que às vezes é um saco ficar tomando conta de crianças pequenas (e maiores também), mas não tem jeito. Se você quer zelar pela segurança então o negócio é investir em medidas de segurança, como protetores de tomada, portões pequenos para impedir o acesso a cozinha e escada, além de ficar de olho nos pequeninos. Se você quer estimular o desenvolvimento motor, não precisa comprar brinquedos caríssimos, basta passar mais tempo brincando com a criança.
Valeu Galera

REFERÊNCIAS:

Sociedade Brasileira de Pediatria

Garrett M, McElroy AM, Staines A. Locomotormilestones and baby walkers: cross-sectional study. BMJ .2002;324:1494.

Crouchman M. The effects of baby walkers on earlylocomotor development. Dev Med Child Neurol .1986;28:757-61.



Committee on Injury and Poison Prevention. Injuries Associated With Infant Walkers. Pediatrics 2001; 108; 790