segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Smartphones podem causar dor ?

Os smartphones são pequenos aparelhos viciantes que de uns anos pra cá se tornaram um item de necessidade básica para muita gente. Tamanha dependência pode ser facilmente explicada pelo fato de poderem ser usados para ouvir música, abrir e-mails, fotografar, caçar Pokemóns, e ainda falar pelo Whatsapp ( Ah! O zap-zap! Como eu adoro o zap-zap!!!!!).

Recentemente alguns pesquisadores têm chamado a atenção para uma condição chamada “Smartphone Neck” (também conhecida pelos termos “text-type syndrome” e “tech-neck”). Traduzindo, ficaria algo como “pescoço de smartphone”, a exemplo de outras síndromes famosas como “cotovelo de tenista”, “cotovelo de golfista”, “joelho de saltador”, etc... Aparentemente, o smartphone neck é uma condição semelhante a uma lesão de esforço repetitivo associada a postura fletida assumida quando usamos esses aparelho por longos períodos de tempo. Essa flexão no plano sagital aumenta a carga sobre as estruturas do pescoço, afetando também a coluna dorsal e lombar devido as compensações posturais.


Tenho certeza que você já viu a cena que irei descrever: Uma pessoa toda encolhida, com os dentes arreganhados, olhando fixamente para uma tela brilhante em sua mão. Costas encurvadas, ombros protraídos, a cervical inferior fletida enquanto a cervical superior permanece estendida. Olha aqui embaixo a sobrecarga que esse apocalipse biomecânico causa sobre o pescoço.
Você se identificou? 
Você se sente como se o peso do mundo estivesse em suas costas?
Pois lhe digo que a solução é muito simples, basta seguir os passos a seguir:

Passo#1- Compre uma passagem para alguma ilha paradisíaca, 

Passo#2- Caminhe calmamente até a beira da praia,


Passo#3- Arremesse seu telefone no mar, o mais longe que puder,

Passo#4- Abra uma cerveja, curta a praia e seja feliz.


Antes de continuar, quero deixar duas pequenas observações:
OBS 1: Para tornar a experiência ainda mais prazerosa, recomendo que antes do passo #3, faça uma última ligação para o seu chefe e mande-o à merda. 
OBS 2: Antes que alguém reclame da minha sugestão de poluir uma praia paradisíaca com um celular, gostaria de deixar bem claro que isso foi uma piada; ou seja: um comentário jocoso, não necessariamente real ou que deva ser seguido (o mesmo vale para a sugestão de ligar para o chefe ).

Mas voltando ao assunto:
Alguns pesquisadores afirmam que existe uma maior prevalência de dores nas regiões cervicais, dorsais e ombros em usuários frequentes de smartphones. Apesar de concordar que ao usar smartphones seu corpo fica em uma postura horrorosa, preciso deixar uma pequena nota de desconfiança sobre a declaração de causa e efeito. Não creio que os smartphones sejam o grande vilão dessa estória.

Ao ler artigos publicados sobre o tema, identifiquei que as evidências de dores crônicas em usuários de smartphones são em sua maioria derivadas de estudos que investigaram pessoas que usavam simultaneamente smartphones, notebooks e computadores (colocando todo mundo num mesmo saco). Não encontrei em minha pesquisa nenhum artigo que tenha investigado única e exclusivamente as queixas álgicas relacionadas ao uso de smartphones (imagino que seja muito difícil estabelecer essa relação, até porque muitos usuários frequentes de smartphones também usam frequentemente computadores, tablets e notebooks, “borrando” assim a população amostral desses estudos). Assim, embora seja uma dedução coerente, não é possível afirmar com base em estudos clínicos que os smartphones sejam a causa de uma “epidemia de dor cervical” como notificado em alguns sites.  

OPINIÃO

O uso frequente de smartphones pode sim contribuir com o desencadeamento e perpetuação de dores cervicais, porém acredito que o mais correto seria relacionar essas dores ao uso excessivo de tecnologia de comunicação pela internet.


Para reforçar esse meu ponto de vista, lembro que existe uma tecnologia, muito mais antiga do que os smartphones que coloca um stress virtualmente idêntico sobre a coluna cervical, mas que nunca recebeu um nome pomposo e nem foi relacionada a epidemias de cervicalgia. Trata-se da prática da leitura de livros, tudo bem que as pessoas não costumam caminhar com um livro na mão (muito menos correr por aí caçando Pokemóns com eles), mas conheço vários concurseiros que passam horas com a cabeça baixa lendo livros em casa, no ônibus, no metrô e trem, na mesmíssima postura da galera que conversa pelo whatsapp (já mencionei que adoro o zap-zap?).

Concluindo, gostaria de propor uma reflexão mais ampla sobre o tema. Vai que o termo “smartphone neck” vire moda, quem sabe? Quando receberem pacientes com este diagnóstico, orientem, tratem as dores e corrijam a postura, mas não se esqueçam de investigar o uso de outros equipamentos de comunicação e lazer como tablets e notebooks, tanto em casa quanto no trabalho.

Hasta la vista amigos!

REFERÊNCIAS

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Tração Cervical Manual

Saudações povo da Terra!!
Esta postagem é sobre as bases científicas do procedimento de tração cervical manual. Lembro que esta foi uma das primeiras coisas que aprendi na faculdade. Pra ser mais exato, a tração cervical foi a segunda ou terceira coisa que aprendi na faculdade. A primeira foi como preparar um drink chamado “Lodo do Pântano”; uma mistura de cachaça, pó de guaraná e suco de maracujá sem açúcar (cada ingrediente misturado em proporções aleatórias). Uma bebida de sabor horrível, que lhe valeu o slogan:   “se é ruim, é Lodo” .
Apesar de ser intragável, o Lodocostumava ser bastante popular nas festas de faculdade, principalmente depois que o bom senso da galera já havia se diluído em álcool. Mas não creio que você acessou esta página para aprender receitas de drinks toscos, por isso voltarei ao assunto que interessa:

TRAÇÃO CERVICAL MANUAL
A tração cervical é um recurso bastante utilizado para aliviar dores na região do pescoço e membros superiores. Trata-se, basicamente, da aplicação de uma força de distração longitudinal com o objetivo de afastar os segmentos vertebrais cervicais. [como na Figura ao lado]


O mecanismo de ação da tração cervical ainda não é totalmente conhecido, porém os efeitos fisiológicos da técnica incluem a descompressão das estruturas articulares, bem como das estruturas neurológicas e vasculares. Seus efeitos incluem ainda o alongamento dos tecidos moles e a estimulação dos mecanorreceptores, proporcionando alívio da dor e redução do tônus muscular.




















Em um trabalho publicado em 2003 no periódico Advances in Physiotherapy, foi observada que a tração cervical promoveu a regressão de discos herniados, aumento da área do canal espinhal, ampliação do espaço discal intervertebral. Também foi identificado o aumento do comprimento da coluna cervical entre C2-C7. Sim, isso mesmo! A tração cervical pode te deixar mais alto, mas não se anime muito, pois a diferença é na ordem de alguns poucos milímetros. Essa diferença pode ser o suficiente para aliviar alguns sintomas, porém dificilmente alguém irá notar que você ficou 10 milímetros mais alto   \ ( ^ o ^ ) /

Mas voltando ao assunto:
Já foram publicadas algumas revisões sistemáticas sobre o tema, porém devido baixa qualidade metodológica dos trabalhos analisados, não foi possível chegar a uma conclusão sobre a eficácia desta técnica. Entretanto, os trabalhos publicados até o momento sugerem que se a Tração Cervical for a única medida terapêutica usada, seus efeitos serão muito limitados. Porém, se aplicada dentro de um programa de reabilitação integral, pode ser útil para acelerar a recuperação. Esta recomendação é reforçada por dois ensaios clínicos randomizados publicados [Phys Ther. 2009;89:632–642] e [Ann Phys Rehab Med 52 (2009) 638–652]

Ao aplicar a tração cervical, devemos considerar cuidadosamente 3 variáveis:

Variável 1- Posição do pescoço:

É recomendável que haja algum grau de flexão cervical, os trabalhos falam em algo entre 15 e 25 graus (na minha opinião, essa flexão é fundamental nos casos em que se deseje ampliar o espaço do forame intervertebral). Para quem quiser  algo mais detalhado, existe um trabalho publicado em 1992 na Spine [clique aqui para acessar] que investigou os graus de separação obtidos em  diferentes ângulos de tração. Até onde sei, ninguém tentou reproduzir este trabalho nos últimos anos. Na figura abaixo, podemos ver o aumento do forame intervertebral que ocorre com a flexão da coluna.
Variável 2- Tempo e Repetições.
Com relação ao tempo em que se deve manter a tração manual, existe uma grande variabilidades relacionado aos tempos e repetições, variando desde 8-10 segundos a 20-30 segundos indo desde 3 até 6 repetições.

Variável 3- Força aplicada.
É importante dosar a força aplicada na tração. Em um trabalho publicado
em 2006 [The Nigerian Postgraduate Medical Journal,13 (3): pp 230-235]
identificou que a força ideal de tração é a que equivale a 10% do peso corporal
do paciente. Um outro autor, sugere que deve-se começar o tratamento com uma
força de 4,5 a 6,8kg e, conforme a melhora do paciente, essa força pode ser
aumentada até 20,4kg [Clique aqui para acessar o artigo]

Assista os vídeos abaixo para conferir algumas técnicas de tração cervical.


 
Eu gosto muito desse video pois demonstra as diferentes técnicas de tração,
bem como a quais segmentos as técnicas afetam mais.

REFERÊNCIAS DESTA POSTAGEM (clique e acesse oas artigos):